sexta-feira, 27 de julho de 2012

Não contém glúten. Ufa!

Pela primeira vez na vida li um texto sobre restrição ao glúten que me senti acolhida, compreendida, diria até acalentada. O lado emocional é o mais afetado quando descobrimos a doença, com a melhora do quadro, vem o sofrimento da restrição alimentar... 

Tomei a liberdade de publicar o texto de Denise Mairesse, psicanalista. Retirei deste blog . Leiam e sintam-se abraçados.

Não contém glúten. Ufa!Quem ainda não leu ou escutou sobre o mais novo vilão do século XXI: o glúten? Contém glúten ou não contém glúten é um enunciado presente na maioria das embalagens dos alimentos industrializados. Trata-se de uma proteína encontrada em alguns cereais, como o trigo, a cevada, o centeio, o malte e a aveia, e causa grandes danos a quem é alérgico. Pessoas com esse problema são portadoras da doença Celíaca, mal que, em função de inflamação no intestino delgado, compromete as vilosidades responsáveis pela absorção dos nutrientes.

Você que não tem restrições ao glúten e é um amante de gastronomia italiana, já se imaginou resistindo a uma pizza ou lasanha como a da “nona”? Você que adora viajar e frequentar lugares exóticos, experienciar outras culturas a partir dos seus sabores, já imaginou precisar perguntar a cada prato quais ingredientes foram usados, como foi preparado, se havia algum glúten passeando por perto da caçarola no momento em que seu camarão estava sendo preparado, ou mesmo saltitando no avental do chef?

Comer fora de casa, nesses casos, torna-se uma aventura nem sempre vibrante, pela superação dos desafios, mas um suplício pelo enfrentamento de “caras e bocas” dos garçons, gerentes, “chefs” de cozinha e clientes quando o interrogatório sobre os pratos se inicia. Taxado muitas vezes de neurótico obsessivo, hipocondríaco ou simplesmente chato, os portadores da doença Celíaca são vítimas de preconceito e alvo de piadas. A dor física e psíquica gerada pela presença da alergia, se curada pela não ingestão do glúten (único tratamento existente), é substituída pelo sofrimento da condição do “ser diferente”, como se não bastasse a saudade que a falta do sabor dos alimentos inflige. A saudades daquele gosto do bolo de chocolate que a mãe preparava para o lanche junto com os amigos ou para o piquenique no parque. O do cachorro quente, entrada principal no cardápio das festinhas de aniversário, o da pizza de domingo, da macarronada instantânea dos acampamentos. Na cultura judaica, em que se comemora o “Pessach” em torno das refeições regadas a “matzá” e “kneidales”, alimentos a base de trigo, também deixam sua marca saudosa. Ou seja: como ser judeu sem comer o “matzá”? Ou ser cristão sem receber a hóstia?

A restrição total ao glúten traz um grande sofrimento para algumas pessoas, principalmente para aquelas a quem os alimentos têm um lugar de afeto e prazer primordial na vida. Assim, os primeiros tempos de descoberta da doença exigem não somente uma elaboração em torno da experiência nutricional e gastronômica, mas da própria identidade e dos valores atribuídos à vida. Nas reuniões sociais é necessário deslocar o prazer dos quitutes servidos para focá-lo no que, desde então, essas ocasiões explicitamente propõem: boas conversas, música, dança ou outras formas de lazer. Muitas vezes, esses propósitos são esquecidos por estarem recobertos por um tipo de apelo emocional dos alimentos. Este é um dos modos de descobrir o quanto se poderia, até ter se deparado com o problema com o glúten, estar se perdendo e o que se passa a ganhar com um outro olhar sobre a vida. Ela torna-se híbrida, mais colorida, divertida. A sociabilização adquire novos sentidos, não se aceita mais comodamente qualquer companhia ou passeio. O tempo e o espaço passam a trazer experiências que não podem mais ser camufladas por uma fatia de torta ou por um copo de cerveja. O que passa a estar em jogo é o que entra e sai pela boca em forma de palavra, de discurso − nem mesmo a pipoca do cinema, que raramente contém glúten, consegue se sobrepor ao gosto pelo filme. O sabor só se sustenta pelo meio e não mais vice-versa.

Assim, se realiza o “luto” por “velhos sabores”, já que alguns são perdidos para terra do “nunca mais”, mas que também oferecem lugar a essas novas experiências. E, também, ao resgate de sabores que deveriam sempre fazer parte constante do nosso dia a dia. Como os das frutas da época, deliciosas como só elas. O sabor de um feijão bem feito, como o da “tia Anastácia”, ou dos doces campeiros que encontramos com fartura: a ambrosia, o pudim de leite, as compotas e muitos mais que guardam em si um gostinho de casa da vovó.

Portanto, é fundamental lembrar mais do que se ganhou do que se perdeu, passar a valorizar os novos sabores, as novas receitas, outros velhos paladares muitas vezes esquecidos. Lembrar que, muitas vezes, no momento do interrogatório nos restaurantes teve alguém que se preocupou, fez questão de pesquisar ou preparar algo especialmente para você. Que existem pessoas que respeitam a diferença e que nesse momento você também passará a respeitá-las e valorizá-las mais, não somente as pessoas, mas a própria diferença. Que estar nessa condição é difícil, mas também pode ser especial pelas possibilidades originadas. E, enfim, lembrar que se você optar pela vida apesar de sua condição de imperfeição ao invés de vivê-la na melancolia pela intolerância com sua própria falta, perceberá que em sua condição de humano e ser faltante se tornará realmente belo. Efeito do brilho que você adquire quando vive plenamente todas as suas possibilidades.


http://dradenisemairesse.blogspot.com.br/2010/03/nao-contem-gluten-ufa.html

4 comentários:

  1. Excelente texto!
    Apesar de ter ficado muito triste com o diagnóstico da minha filha aos 3 anos, no fundo eu agradeci a Deus, por ter sido neste momento.
    Estamos "moldando" os hábitos alimentares dela e ela lida muito bem com as restrições.
    Eu imagino como deve ser difícil, quando o diagnóstico é mais tarde, quando estamos habituados e "apegados" com os lanches, as pizzas, os petiscos de festa, etc.
    Por outro lado, acho que a mídia poderia ajudar muito os celíacos, falando um pouco mais sobre o problema, colocando na novela, tornando tudo mais comum.
    Quem sabe assim, haveria menos "caras e bocas" quando questionássemos nos restaurantes e hotéis sobre a composição e modo de fazer dos alimentos.
    Eu acho um absurdo quando pergunto em alguma lanchonete ou restaurante sobre o gluten e a pessoa não sabe nem o que é!
    Como as pessoas são negligentes com seus negócios! Se o foco do fornecimento é o alimento, como não se informar sobre tudo o que envolve essa prestação de serviço???!!
    Mas, por outro lado, tem os blogs, as lojas de produtos naturais e outras pessoas "do bem", que se preocupam e tentam tornar a vida do celíaco bem mais fácil.
    Pode se incluir nestas pessoas, Josi!
    Um beijo

    Ana

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  2. Nossa Ana, comentário tão bom quanto o texto! Obrigada por sua participação. Também acho que poderia passar mais na TV sobre tudo isso, já que falam de tanta bobagem, podem usar para assuntos úteis e de informação. Que bom que sua filha é lida bem com adaptações, acredito quanto mais jovem melhor mesmo. Por enquanto vamos usando nossos meios de veicular as informações não é mesmo? Beijo grande e boa sorte!

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  3. olá Josi, gostei muito da receita do pao frances, gostava de saber se é possivel fazer esta receita sem psyllim husk? os meus cumprimentos

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  4. OI Ancha, tudo bem? Obrigada pelo contato e pelos elogios. Não posso te responder isso Ancha, só fiz com o psillyum, ele deixa a massa diferente.
    Procure na internet, tem como comprar! Boa sorte, beijos.

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